segunda-feira, abril 04, 2011

Conversas de ônibus I


"A ignorância é tua melhor amiga. Acostuma-te com ela ou sofra as consequências."

E lá estava ele... Sobriamente vestido, com ar imponente, tentando não prestar atenção na iminente lotação do 425, sentido Leste. Subiu alguns pontos após o terminal, portanto, conseguiu sentar-se ao lado da janela, como gostava de fazer. Mas sabia que logo teria que levantar, pois seu ponto de descida era logo após o centro, o lugar onde o ônibus geralmente ficava igual a uma lata de sardinha, então, permanecer sentado era uma má opção. Mas apreciava a paisagem, sem perder a integridade de homem sério. Fazia frio.
Virando logo à Alameda do Oratório, uma moça bem vestida deu sinal. Cabelos ruivos, óculos de arame fino, cachecol xadrez em preto e branco, sobretudo preto, combinando com uma charmosa bota de couro. Aparentava ter entre 20 e 25 anos. Subiu os degraus com delicadeza, cumprimentou o motorista e o cobrador, pareciam ser conhecidos, embora ele nunca a tivesse visto subindo neste ponto. Passou o cartão na catraca e foi. O ônibus estava realmente com pouquíssimas pessoas, em média, umas 8 ou 9, mas ela veio justamente para o ponto onde ele estava sentado. Sentou-se bem atrás dele. Tantos lugares vagos, ela foi escolher justo aquele. Incomodava-lhe a presença de estranhos tão perto assim. Mas ela aparentemente era tão suave, delicada e bela (sim, era extremamente bela) que resolveu deixar o incômodo de lado e apreciar a paisagem.
Ainda estava longe do centro, quando, de repente, ouviu uma doce e tranquila voz ao seu ouvido, vinda de trás:
- Posso sentar-me com o senhor?
Surpreso com a pergunta e com sua fonte, apenas conseguiu pensar em uma palavra:
- Porque?
- Ah, estou com muito frio. Talvez sentando ao teu lado amenize um pouco.
Parou um pouco para pensar. Ninguém pede para sentar-se ao lado de ninguém no ônibus do nada. Mas de algum jeito, aquela voz, aquele perfume suave e talvez aquela simpatia toda o contagiaram. Era um tanto confortável tê-la por perto.
- Tudo bem, por que não?
E sentou-se. Quando encostou suas costas no espaldar do banco, virou graciosamente o rosto na direção dele e desferiu um amplo sorriso, que supriu todas as necessidades que o momento pedia de um simples "obrigada". Ele retribuiu com um sorriso pequeno, tímido. Ele tentou retornar sua atenção para a "interessante" paisagem, mas a moça ficou encarando-o. Mais do que a presença de pessoas estranhas, ele não suportava a ideia de pessoas estranhas o encarando. Ela perguntou:
- Você trabalha com marketing?
Ele achou estranho alguém puxar conversa com ele, justamente com ele, que sempre ficava quieto em seu canto no ônibus... Mas educadamente, respondeu:
- Não, na verdade sou produtor cultural. - Achando estranho de si mesmo a sinceridade e a voluntariedade de contar detalhes de sua vida.
- Ah, que interessante! Então é você quem cuida de arranjar espaços para shows e eventos?
- Sim, além de toda a parte burocrática, segurança e inovação...
E curiosamente, mantiveram a conversa. Ele já não estava prestando atenção na janela suja, e ela estava com o olhar brilhante como o de uma criança que ganha um presente de Natal. Ela estava muito animada para uma manhã fria de Julho. Ela o fez sentir que sua vida era interessante, mesmo para uma garota tão jovem. E, além de seu interesse, seu perfume e sua voz intrigada e delicada o incentivaram a soltar a língua e perder a timidez. Respondeu a tudo o que ela perguntava, e ria junto com ela sobre assuntos inúteis, mas que lhe fizeram a felicidade naquela manhã.
Passado muito tempo de conversa, ela finalmente falou:
- Ah, aqui é meu ponto. Se importa se eu me for?
- Cara senhorita, não te deixarei ir sozinha, descerei junto!
Já havia passado há tempos o ponto do homem, mas ele nem notou e nem se importou quando desceu. Também não havia notado que o ônibus já estava em seu caminho de volta, pela Alameda do Oratório, onde a garota subira.
No dia seguinte, novamente na Alameda, a garota subiu no ônibus e perguntou para o cobrador:
- Aquele senhor com quem estava conversando ontem, onde está?
- Não sei, também achei estranho ele não subir hoje.
Ela passou o cartão e entrou no corredor do ônibus. Viu um rapaz cabisbaixo sentado no fundo do ônibus.
- Posso sentar-me contigo?
E um sorriso se abriu.

2 comentários:

  1. ótimoooo, arrudinha :D adoro te ler. ps: daqui uns anos eu serei uma produtora cultural também *-*

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