terça-feira, fevereiro 19, 2013

A Verdade

Adaptado do livro "Jogador Nº 1", de Ernest Cline.

Aceitava como verdade todas as bobagens que me diziam. O tempo passou. Cresci um pouco e gradualmente comecei a entender que praticamente todo mundo mentiu pra mim sobre quase tudo desde o momento em que saí da barriga da minha mãe.

Aquela revelação foi de espantar.

Por causa dela, tive dificuldades em confiar nas pessoas mais tarde.

Comecei a descobrir a feia verdade quando passei a explorar as bibliotecas. Os fatos estavam bem ali, esperando por mim, escondidos em livros antigos escritos por pessoas que não tinham medo de dizer a verdade. Artistas, cientistas, filósofos e poetas, vários deles falecidos muitos anos atrás. Conforme fui lendo as palavras que eles tinham deixado, finalmente comecei a ter noção da situação. De minha situação. De nossa situação, à qual a maioria das pessoas se referia como "a condição humana".

Não foi nada bacana.

Gostaria que alguém tivesse dito a verdade logo de cara, quando eu já tinha idade suficiente para entender do que se tratava. Gostaria que alguém tivesse simplesmente dito:

"O lance é o seguinte, cara. Você é algo chamado 'ser humano'. É uma espécie muito esperta de animal. Como qualquer outro animal deste mundo, nós nos originamos de um organismo de uma única célula que viveu milhões de anos atrás. Isso se deu por um processo chamado evolução, e você vai aprender mais sobre ele depois. Mas pode confiar em mim, foi assim que chegamos aonde estamos. Existem provas disso em todos os cantos, enterradas nas rochas. A história que você ouviu de que fomos criados por um cara superpoderoso chamado Deus, que vivia no céu, é balela. A história de Deus é, na verdade, um conto de fadas antigo que as pessoas contam umas às outras há milhares de anos. Inventamos tudo.
"E a propósito... Não existe Papai Noel nem Coelhinho da Páscoa. É tudo mentira. Desculpe, cara. Enfrente isso.
"Você deve estar se perguntando o que aconteceu antes de você chegar aqui. Um monte de coisas, na verdade. Quando evoluímos e nos tornamos seres humanos, as coisas ficaram bem interessantes. Aprendemos a cultivar alimentos e a domesticar animais para não precisarmos passar o tempo todo caçando. Nossas tribos ficaram bem maiores e nós nos espalhamos pelo planeta como um vírus incontrolável. E então, depois de travarmos um monte de guerras por causa de outras terras, de recursos e de nossos deuses inventados, acabamos organizando nossas tribos em uma 'civilização mundial'. Mas, para ser honesto, as coisas não foram lá muito bem organizadas nem civilizadas, e continuamos a enfrentar muitas guerras uns com os outros. Mas também aprendemos a fazer ciência, o que nos ajudou a desenvolver a tecnologia. Para um monte de macacos sem pelos, conseguimos inventar algumas coisas bem incríveis. Computadores. Remédios. Laser. Forno de micro-ondas. Coração artificial. Bomba atômica. Até mandamos alguns caras para a Lua e os trouxemos de volta. Também criamos uma rede de comunicação global que permite que nos comuniquemos uns com os outros em todas as partes do mundo, o tempo todo. Impressionante, não?
"E agora é que vem as notícias ruins. Nossa civilização mundial foi formada a um preço alto. Precisamos de muita energia para construí-la e obtemos essa energia por meio da queima de combustíveis fósseis, que vieram de plantas e animais mortos enterrados bem fundo no solo. Usamos a maior parte desse combustível antes de sua chegada, e agora estamos quase sem nada. Isso quer dizer que não temos mais energia suficiente para manter a civilização em andamento como antes. Por isso, precisamos reduzir o uso. Problemão. A isso damos o nome de Crise de Energia Global, e já dura um tempo.
"Além disso, a queima de todos os combustíveis fósseis acarretou uns efeitos colaterais meio feios, como o aumento da temperatura de nosso planeta e a mudança no meio-ambiente. Então, agora as calotas polares estão derretendo, os níveis dos oceanos estão subindo e o clima está todo bagunçado. Plantas e animais estão morrendo em números recordes, e muitas pessoas estão morrendo de fome, sem ter onde morar. Continuamos travando guerras uns com os outros, principalmente por causa de alguns recursos que sobraram.
"Basicamente, cara, isso quer dizer que a vida anda bem mais difícil que antes, nas épocas boas, antes de você ter nascido. As coisas eram ótimas, mas agora estão aterrorizantes. Para ser honesto, o futuro não parece muito animador. Você nasceu num momento muito ruim da história. E pelo visto, as coisas só vão piorar daqui em diante. A civilização humana está em 'declínio'. Algumas pessoas até chegaram a dizer que ela está 'ruindo'.
"Você deve estar pensando o que vai acontecer em sua vida. Fácil. A mesma coisa que vai acontecer com você já aconteceu com todos os outros seres humanos que já viveram. Você vai morrer. Todos morreremos. É assim que as coisas são.
"O que acontece depois da morte? Bem, não sabemos ao certo. Mas as evidências sugerem que não acontece nada. Você morre, seu cérebro para de funcionar e você some e deixa de fazer perguntas irritantes. Sabe as histórias que já escutou? Sobre ir para um lugar maravilhoso chamado 'céu', onde não há mais dor nem morte e você vive em estado perpétuo de felicidade? Isso também é bobagem. Assim como toda a história sobre Deus. Não há provas de que o céu existe, e nunca houve. Inventamos isso também. Só uma quimera. Então agora você tem de viver pelo resto de sua vida sabendo que vai morrer um dia e desaparecer para sempre.
"Sinto muito."


Pensando bem, talvez a sinceridade não seja o melhor caminho. Talvez não seja uma boa ideia dizer a um ser humano recém-chegado que ele nasceu em um mundo de caos, dor e pobreza bem a tempo de ver tudo desabar. Descobri tudo isso aos poucos, ao passar de muitos anos, e ainda hoje sinto vontade de me jogar da janela.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Em busca da vida


Quando os seres humanos aprenderão a viver?
Quando veremos a verdadeira verdade?
Quando poderemos nos considerar realmente livres?

Estamos em uma corrida de obstáculos
E cada um deles nos leva ao próximo
Em uma sequência claramente padronizada

Não vemos os padrões na vida
Porque não queremos.

Porque não queremos ter essa habilidade.

Porque não temos tamanha paciência
Para esperar a vida se acalmar
E passar por nós
Enquanto apenas observamos

A vida segue seu usuário.
Se o usuário tem pressa, a vida passa feito um raio na frente dos olhos.
Se o usuário tem calma, a vida vai dar as mãos a este e caminhar tranquilamente.

Não reclame que a vida está corrida.
Não reclame que você não tem tempo pra mais nada.
Isso é sinal que você não tem mais tempo para a vida.
E a vida começa a não ter tempo para você.

A vida não é uma corrente individual.
Não.
Ela é algo bem maior,
Algo que envolve tudo e todos.
Ela, univocamente,
A vida.

Ela é uma única entidade.
Não desrespeite-a.
Você pode estar destruindo-a,
E assim,
Destruindo muitas pessoas no processo.

Pois todos somos usuários da vida.
E ela gratuitamente
Solidariamente
Quase que com pena
Caminha junto conosco

Nossa vida é curta
Não a encurte mais ainda

Você encontra muitas perguntas a serem respondidas
Mas nunca encontra respostas.

TOLO!
Não vês que sua busca é inútil?
Porque afinal, não cabe a você responder todas essas perguntas.

A pergunta é uma única.
Aonde estão os nossos sorrisos?

terça-feira, outubro 23, 2012

A faca



                Vinte e cinco de junho de dois mil e três. Dezenove horas e quarenta e sete minutos. Lá fora fazem oito graus Celsius. Faltam exatamente treze minutos para abrirmos as portas e recebermos por esta noite cerca de trezentos clientes ansiosos por um lugar quente e confortável, aonde estes porcos gordos podem ter toda a lavagem que seus milionários bolsos podem pagar. Meu nome é Andrei e sou apenas uma peça desse sistema todo. A peça que recolhe a carne pútrida da caixa de gelo que chamam de frigorífico para então jogar em cima de uma tábua e desfiá-la em fatias igualmente nojentas de um centímetro de espessura e dez centímetros de diâmetro cada, manda-la ainda sangrando para a pessoa mais arrogante e narcisista que já vi na face da Terra, que se auto-intitula chef e servi-la com desprezo ao olhar faminto e selvagem daqueles seres, para quem parecemos nada mais do que servos, escravos. Vinte horas. Chegou a hora.
                Hoje é um dia especial. Hoje faz exatamente três mil seiscentos e cinquenta e dois dias que esta espelunca que prepara comida cara foi aberta pela primeira vez. Obviamente, o prefeito Saint não poderia perder esta oportunidade de se entrosar com seus eleitores mais abastados. Lá está ele, com sua barba ruiva, parecendo estar suja de sangue, seu paletó verde-escuro tradicional do país de seus antepassados, de quem diz ter muito “orgulho”. Está rindo com, me parece, seus parentes. Esta visão me dá náuseas, mas a raiva me faz ficar encarando de dentro da cozinha.
                — Andrei, a casa está cheia, seu idiota, pare de ficar aí olhando! — Chama minha atenção um dos colegas de trabalho.
                Viro-me lentamente, sincronizando com meu humor que tem que ser controlado para conseguir parcamente sustentar minha mãe e meus três irmãos pequenos. A pancada do amaciador de carne me traz à realidade. Respiro duas, três vezes profundamente, pego meu casaco que deveria ser branco, agora já está em um tom avermelhado, e entro no frigorífico. As únicas coisas que eu esperava encontrar lá dentro eram gelo, varas de metal e muita carne congelada pendurada nelas. Mas encontro também uma pessoa, de costas, bem no fundo da sala, sem proteção alguma ao frio cortante, dando a impressão de que está analisando peça por peça de carne. Chego mais perto para enxergar melhor através da neblina fria e vejo Robert, o chef.
                — Olá, Andrei. Como está a noite lá fora? — Diz sem se virar.
                — Bem, a casa está cheia. — Digo em um tom extremamente monótono.
                — Ótimo, ótimo... — ele está pensativo demais — Então, acho que temos muito trabalho a fazer, não é? — e também muito estranho.
                — Sim, foi o que vim fazer aqui.
                — Ótimo saber que posso contar com você, Andrei.
                Ele se vira, dá um sorriso largo demais, sincero demais para ser verdadeiro, e se encaminha à porta. Chegando à distância de aproximadamente dois metros da saída, ele diz:
                — Ah, pegue a melhor peça para o prefeito, sim? — sem esperar resposta, vai embora.
                Chego mais perto das peças que ele estava analisando e vejo uma que parece fresca, vermelha, limpa, a melhor peça de carne que eu já vi na vida. Dá vontade de arrancar um pedaço dela com os dentes, crua deste jeito mesmo. Pequena em comparação às outras, mas totalmente suculenta. Tiro-a da vara e a levo para a cozinha. O fedor de alho frito e ervas cozidas já toma o ambiente. O costume não é suficiente para disfarçar o mal-estar que este cheiro provoca. Minha faca não está aonde a deixei. A raiva aumenta. Facas são instrumentos extremamente pessoais e não devem ser tocadas por outras pessoas senão os donos. Fecho os olhos e torço para que ela apareça na minha frente quando eu os abrir. Quando abro os olhos, deparo-me com Robert segurando uma bela faca, quatorze centímetros de um cabo azul escuro adornado de enfeites em dourado e prata, vinte e sete centímetros de uma lâmina afiadíssima que herdei de meu pai. A lâmina estava com manchas vermelhas.
                — Esqueci-me de lhe devolver. Não consigo achar minha faca em lugar algum e, como esta é a melhor que temos aqui, tirando a minha, resolvi empresta-la por uns minutos. Você não se importa, não é? — ele está de volta ao normal.
                — Não, tudo bem. — Estendo minha mão para receber o instrumento. Robert coloca-o na minha mão, mas com a lâmina voltada para a minha palma. Respiro fundo, já imaginando que isso ia acontecer. Preciso prender a faca entre meus dedos para ficar longe da lâmina e tira-la da mão deste propenso psicopata. Sinto uma dor aguda enquanto a lâmina começa a correr pelas linhas da minha mão quando, num reflexo, giro a mão para cima, segurando firmemente no contragume. Robert olha penetrante em meus olhos.
                — Lave a faca e comece a trabalhar. — diz, ameaçadoramente.
                Digo absolutamente nada. Faço o que ele manda, lavo a faca, mas o sangue nela está tão fresco que é fácil de tirar. Começo a cortar a carne, mas percebo que a tonalidade de vermelho dela é diferente também das outras carnes. E é igual à tonalidade de vermelho presente anteriormente na faca. Estranho por um segundo, mas penso que deve ser uma qualidade de boi mais apropriada para receber uma autoridade como o Sr. Saint. Escuto uma conversa abafada de cozinheiros do outro lado da mesa de inox.
                — A Bernadette ficará com problemas. Ontem discutiu com o Bob, hoje nem deu as caras. Deve ser por isso que ele está tão raivoso.
                — Mas ela mereceu. Ela ficou louca de inventar que a comida aqui é estragada. Ainda bem que deram um jeito de contornar a situação. Passe-me o maçarico, por favor?
                Bernadette, a mamma do restaurante, a melhor cozinheira que este país já viu, uma simpatia de pessoa e minha única amiga de verdade aqui. Ela me trata realmente como um filho. Ela estava certa sobre a comida estragada, eu presencio isso todos os dias, cortando aquelas carnes já verdes. Aliás, todos sabem disso aqui. Alguns, como esses dois, são influenciados por Robert, ou Bob, como estes bajuladores gostam de chamar, ou então não tem coragem suficiente para enfrentar o chef. Ela está aqui desde que o restaurante abriu, costumava ser a chef e todos a respeitavam. Desde que o pai de Robert comprou o restaurante, há dois anos, Bernadette foi destituída do cargo e só conseguiu um lugar de cozinheira por sua experiência. Fico me perguntando se ela não veio hoje por medo do que Robert podia fazer para ela. Talvez ele já tenha até falado com o pai e ela tenha sido demitida.
                Eu mesmo não deveria estar aqui. Quando meu pai morreu eu tive que assumir o lugar dele de cozinheiro, mas comecei por baixo, obviamente.  Sempre sonhei em mexer com números. Eles dançam na minha frente como um balé magistral e se arranjam de forma esplendorosa de forma que, naturalmente, consigo manipula-los na minha cabeça e fazer contas que muitos somente conseguiriam com o auxílio de uma máquina calculadora. E só estudei até os quinze anos.
                Mas aquelas informações não estavam muito sincronizadas em sua dança. Primeiro, o deslumbre quase vitorioso e totalmente esquizofrênico de Robert no frigorífico. Depois, o sumiço da minha faca seguido pelo ataque de Robert à minha mão. A carne diferente. O sangue. Bernadette.
                A partir deste momento, não sei mais o que é real ou não. Sinto algo, sei disto, mas é mais interno do que externo. Isto que sinto, não sei definir bem, é uma mistura heterogênea entre adrenalina, nervosismo, sangue, histeria, compreensão e raiva. Caldeirões inteiros de raiva derramados sobre minha alma. Sinto minha pressão baixar, meu rosto ficar insensível, mas uma ruga entre minhas sobrancelhas está se formando, sei disto. Sei também que o sangue parece ter coagulado em minhas mãos e elas ardem. Vejo meu punho fechado com força em torno de um cabo de madeira tingido de azul, extremamente bonito, a faca do meu pai, a faca que é o único bem que possuo. Minhas articulações dos dedos estão brancas. Respiro involuntariamente três, quatro, cinco vezes, rápido, mas não penso. Não penso em nada do que faço a partir do momento em que entendi. Em que as peças do quebra-cabeça se encaixaram e deram seu último pas de bourrée em direção ao grand finale. ASSASSINO.  ASSASSINO. ASSASSINO.
                Vejo-o entrar novamente no frigorífico e o sigo. Ele não percebe minha presença porque o circulador de ar dentro da sala foi ativado e o barulho é ensurdecedor. Mas quero que ele me olhe nos olhos. Quero ver isto, sentar na tribuna e ficar apreciando o espetáculo do lugar mais privilegiado que existe. Frente a frente, olhos nos olhos. Ele avança em direção à parede da sala e abre uma espécie de porta secreta que eu nunca soubera da existência. Chego mais perto e vejo lá dentro corpos, muitos corpos nus, por volta de quinze corpos empilhados. O fedor é insuportável. Deve ser por isso que ele veio pra cá justamente quando a sala estava com o ar circulando, para disfarçar o cheiro. No topo da pilha, vejo uma massa grande, com cabelos curtos ondulados e aparência idosa. Bernadette. Parece que Robert achou sua faca, pois está desembainhando-a, puxando uma perna do corpo de Bernadette e cortando um pedaço considerável. Sua faca é da mais alta qualidade e em questão de segundos ele tira um naco de carne e guarda em um saco transparente. Vejo que o outro lado do corpo de Bernadette já está boa parte decepado. A carne que eu estava cortando. Sinto um enjoo profundo ao perceber isto, mas preciso me manter firme. Robert se levanta e vira. Parece que a esquizofrenia voltou, pois não parece nem um pouco surpreso por me ver ali.
                — Ah, Andrei. Parece que nossa despensa está com produto novo, não é? Mas... Eu acho que ele não vai durar muito tempo... Sabe como é, carne velha não é muito boa. Acho que eu preciso de carne nova, para... Atrair mais fregueses. Concorda?
                — Seu louco! O que você fez?
                — Vamos lá, Andrei. Há quanto tempo este restaurante não tem tantos clientes?
                — Você é doente.
                — Ah, bem. Então neste caso, creio que já achei minha carne nova.
                Ele saca sua adaga de dois gumes com lâmina de trinta centímetros e parte para cima de mim. Consigo desviar o primeiro golpe, mas o segundo corta meu braço esquerdo. Não tenho muita condição física, mas sei manejar uma faca muito bem. Revido. Um, dois, três golpes evadidos. Parece que Robert é mais ágil do que eu imaginava. Ele se recosta na parede e eu avanço. Um grande erro meu, pois no momento em que ia cravar a faca em seu coração, ele gira, bato com a cabeça na parede e saio com um corte mais profundo no ombro direito. Ele se move com facilidade e eu sou muito desastrado. Não tenho nem tempo para recuperar o fôlego, já vejo Robert empunhar a adaga não para cortar, mas desta vez para perfurar. Ele corre e, pelo que acredito ser um milagre, dou um salto para o lado e consigo fazer um corte em sua calça. Ele parece ficar com raiva e avança com a vitalidade de um atleta. Uso o gelo em meu favor e corro para um lado da sala enquanto ouço-o escorregar, mas não cair. Estou a uma distância teoricamente segura, mas ele ainda avança. Seus movimentos parecem ensaiados, longos e esguios. Parece... Um dançarino. É isso. Percebo que o braço direito não tem mais forças, então troco a faca de mão. Apoio o contragume da faca na palma da minha mão e fecho meu punho, deixando a lâmina entre meu polegar e indicador. O contra disto é que não sou canhoto, e tenho uma inabilidade latente no braço esquerdo. Vejo meu adversário se aproximar a passos lentos e o espetáculo começa. Números, linhas, parábolas e circunferências se formam à minha frente e no meu braço e punho. Encontro uma maneira confortável de segurar a faca e vejo o ponto. Lanço a faca. Parece que tudo se movimenta mais lento, vejo a trajetória da lâmina prosseguir no compasso certo, em direção ao coração. Robert percebe a lâmina encaminhando-se em direção a ele e se assusta. No susto, ele escorrega e cai. Mas não há mais salvação. Neste momento a cena volta à velocidade normal e vejo que minha faca está rápida demais para errar o alvo. Acaba entrando bem na traqueia, o que faz com que Robert fique tremendo no chão, sufocando, sofrendo. Segundos depois, vejo o tremor cessar e o sangue se espalhar pelo gelo. Está acabado.
                De dentro da cozinha fico assistindo o prefeito, que deve ter acabado de contar uma piada para a mesa estar rindo tanto, receber uma bandeja de cúpula com o prato principal. Ele fica animado e pede para a enorme filha de doze anos abrir a cúpula. É surpreendente como a expressão da mesa mudou tão de repente de excitação para terror absoluto. Porque em cima da bandeja estava a cabeça do chef.